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MARCO SILVA – No Piso Térreo de um Clarão

6 de junho a 4 de julho 2026

Mês do Mirandês na Cooperativa Árvore
Més de l Mirandés na Copratiba Árvore

MARCO SILVA

No Piso Térreo de um Clarão
Ne l Chano de un Relhampo

Sala 2

 

Na latência da noite, caminhamos No Piso Térreo de um Clarão. O jardim crepuscular, submerso tanto em aurora rosada como nas águas de um anoitecer, dentro do qual eclode a luz que atravessa a vaporosa cortina do fantasma. Erguem-se os muros, paredes rugosas recortadas pela neblina lustrosa do verdor, banhadas de dia, afogadas de noite. Na interrupção, abre-se a boca do umbral, devoradora entrada do labirinto onde o ser oscila entre ir e ficar.

Corpos em revolução, carnes atadas por um gesto que toma forma de corda e prende dois para serem um só. Nos membros que esperneiam, mãos que agarram, dentes que rasgam, paira o par unido pela luta. O Eu inchado e deformado com a vontade de destruir o Outro, simultaneamente consumido pelo desejo de agarrar, de serem apenas dois corpos a rebolar na relva de um jardim privado, selados no sigilo dos muros. Corpos como pedras e como espectros, cujo caráter diáfano se opõe ao seu peso, que desaparece numa rotação nervosa, na pele e no musgo. Antigos, marcados não pela sua realidade, pela sua presença, mas sim pelo seu não-ser, restos de um passado que assombra.

Caos, por entre o latejar de mil asas iridescentes, bicos que debicam em uvas, os que sobrevoam muros. Cessam o voo com a envergadura de duas mãos abertas, a imagem cinzenta do pássaro-pedra que desce dos céus para repousar sobre a terra, para chapinhar nas águas de uma fonte. A sucessão de arcos que irrompem, laços brancos para banhar o nácar das asas de um pombo, apaziguar o seu bater frenético na frieza de um oásis. Maçãs e olhos tocados por Midas.

Descalços, ergamos os pés sobre os arcos metálicos que delineiam o não-pisar.

Mónica Nóbrega

 

No Piso Térreo de um Clarão tem como ponto de partida a noção de jardim privado que, desde tempos ancestrais, se afirmou como um espaço de reflexão e contemplação existenciais. Através da pintura imbuída de uma certa transparência representacional (nos termos de Carlos Vidal), torna-se possível enquadrar e dar a ver um espaço outro, onde o caráter meramente material da obra é extravasado por um aparecer da verdade: um des-velar ontológico (como nos falava Heidegger). Nesse sentido, através da matéria plástica e pela poesia do gesto, estas pinturas constroem um espaço limiar, emaranhado nas suas próprias lógicas, dando à luz um lugar crepuscular, onde o ser se desvela, ultrapassando a sua imagem: clarão.
O crepúsculo, umbral entre dia e noite coloca-nos em contacto com um outro ser em nós, onde a luz natural já não acede, estabelecendo um movimento para a escuridão da incerteza interna. Esta transição, encontra na pintura a estratificação em camadas de luz e gesto uma espécie de jardim da eternidade; recinto contornado por muros, em que o tempo transitório se congela e faz eclodir a passagem de um lado a outro. No Piso Térreo de um Clarão, posiciona-nos na gaiola de todos os tempos, congelando corpos em lutas catalépticas à espera de receber um último golpe.

 

Ne l chano dun relhampo ten cumo punto de salida l’eideia de jardin pribado que, yá muitá, creciu cumo campo para cismar subre la bida. Cula pintura anchoquecida de ua cierta trasparéncia repersentacional (nas palabras de Carlos Vidal), ye possible anquadrar i dar a ber ua campo outro, adonde l calatriç material de la obra ye arrepassado por ua aparecer de la berdade: un des-velar ountológico (cumo nos dezie Heidegger). Nesse sentido, cula matéria plásquita i cula poesie de l géstio, estas pinturas fáien un campo lhemite, ambaralhado nas sues própias lógicas, amostrando un sítio de lhuçque- fuçque, adonde l ser se rebela, arrepassando la sue eimaige: relhampo.
L lhuçque-fuçque, portalada antre die i nuite, pon-mos an cuntato cun un outro ser de nós, adonde la lhuç natural yá nun chega, fazendo un mobimiento para l scuro de l’ancerteza eiterna. Esta passaige acha na pintura ls scalones an camadas de lhuç i géstio ua spece de jardin de l’eiternidade; terreiro arrodiado de paredes, an que l tiempo que passa se deten i fai rebentar la passaige de un lhado a outro. Ne l Chano de un Relhampo pon-mos na gueiola de todos ls tiempos, detenendo cuorpos an lhuitas cumo de ancantos a la spera de lhebar al última porrada.

 

 

Biografia

Nasceu em Coimbra, em 2003. Licenciou-se em Pintura na Faculdade de Belas Artes do Porto em 2025. Atualmente desenvolve a sua prática artística independente no Porto e é professor de desenho e pintura na Escola Utopia. Na sua prática artística, procura cruzar temas e mitos da história da arte e da pintura numa relação interseccional com a auto-representação. No seu trabalho, a pintura é corpo central para desvendar enigmas e inquietações interiores, servindo-se do conflito real/imaginado que sempre lhe(s) esteve implícito. Esse outro lado que a pintura sempre alucinou, procura ser um espaço de realidade do Ser, ainda por revelar, oferecendo chaves para pensar a pintura enquanto força ontológica.

Naciu an Coimbra, an 2003. Lhicenciou-se an Pintura na Faculdade de Belas Artes de l Porto an 2025. Agora zambuolbe la sue prática artística andependiente ne l Porto i ye porsor de dezeinho i pintura na scola Utopia. Na sue prática artística, busca cruzar temas i mitos de la stória de l’arte i de la pintura nua relaçon adonde cruza tamien la auto-repersentaçon. Ne l sou trabalho, la pintura ye cuorpo central para amostrar adebinas i cunsemiçones anternas, serbindo-se de la guerra antre l real/manginado que siempre fizo parte. Esse outro lhado que la pintura siempre zbairou, busca ser un campo de rialidadade de l Ser, inda por rebelar, oufrecendo chabes par apensar la pintura anquanto fuorça ountológica.

 

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