6 de junho a 4 de julho 2026
MARCO SILVA
No Piso Térreo de um Clarão
Ne l Chano de un Relhampo
Inauguração: 6 de junho às 16h
Sala 2
Na latência da noite, caminhamos No Piso Térreo de um Clarão. O jardim crepuscular, submerso tanto em aurora rosada como nas águas de um anoitecer, dentro do qual eclode a luz que atravessa a vaporosa cortina do fantasma. Erguem-se os muros, paredes rugosas recortadas pela neblina lustrosa do verdor, banhadas de dia, afogadas de noite. Na interrupção, abre-se a boca do umbral, devoradora entrada do labirinto onde o ser oscila entre ir e ficar.
Corpos em revolução, carnes atadas por um gesto que toma forma de corda e prende dois para serem um só. Nos membros que esperneiam, mãos que agarram, dentes que rasgam, paira o par unido pela luta. O Eu inchado e deformado com a vontade de destruir o Outro, simultaneamente consumido pelo desejo de agarrar, de serem apenas dois corpos a rebolar na relva de um jardim privado, selados no sigilo dos muros. Corpos como pedras e como espectros, cujo caráter diáfano se opõe ao seu peso, que desaparece numa rotação nervosa, na pele e no musgo. Antigos, marcados não pela sua realidade, pela sua presença, mas sim pelo seu não-ser, restos de um passado que assombra.
Caos, por entre o latejar de mil asas iridescentes, bicos que debicam em uvas, os que sobrevoam muros. Cessam o voo com a envergadura de duas mãos abertas, a imagem cinzenta do pássaro-pedra que desce dos céus para repousar sobre a terra, para chapinhar nas águas de uma fonte. A sucessão de arcos que irrompem, laços brancos para banhar o nácar das asas de um pombo, apaziguar o seu bater frenético na frieza de um oásis. Maçãs e olhos tocados por Midas.
Descalços, ergamos os pés sobre os arcos metálicos que delineiam o não-pisar.
Mónica Nóbrega
Biografia
Marco Silva nasceu em Coimbra, em 2003. Licenciou-se em Pintura na Faculdade de Belas Artes do Porto em 2025. Atualmente desenvolve a sua prática artística independente no Porto e é professor de desenho e pintura na Escola Utopia. Na sua prática artística, procura cruzar temas e mitos da história da arte e da pintura numa relação interseccional com a auto-representação. No seu trabalho, a pintura é corpo central para desvendar enigmas e inquietações interiores, servindo-se do conflito real/imaginado que sempre lhe(s) esteve implícito. Esse outro lado que a pintura sempre alucinou, procura ser um espaço de realidade do Ser, ainda por revelar, oferecendo chaves para pensar a pintura enquanto força ontológica.



